Por muito tempo, o processo seletivo girou em torno de um roteiro bem conhecido: a empresa abre a vaga, lista os requisitos técnicos, filtra os candidatos que não se encaixam no perfil e contrata quem parece mais parecido com quem já ocupa aquela cadeira. Esse modelo funcionou, e ainda pode funcionar, bem em algumas empresas. Mas, conforme o ritmo de mudanças de mercado vai avançando, surge a necessidade de olhar para habilidades transferíveis, por exemplo.
Isso porque as organizações precisam se adaptar com uma velocidade que a formação técnica, por si só, não consegue acompanhar. Saiba mais sobre essas habilidades!
O que são habilidades transferíveis?
São competências desenvolvidas no contexto de uma experiência (de trabalho, acadêmica ou voluntária) e que agregam valor a contextos completamente diferentes. Ou seja, elas não estão presas a uma função, setor ou cargo.
Um profissional que passou anos lidando com situações de alta pressão em atendimento ao cliente, por exemplo, pode desenvolver também maiores níveis de tolerância à pressão, capacidade de mediação de conflitos, comunicação assertiva e resolução rápida de problemas, por exemplo. Essas mesmas competências são úteis em um gerente de projetos, em um líder comercial ou em um analista de sucesso do cliente.
Da mesma forma, um professor que migra para o mercado corporativo traz consigo didática, planejamento, capacidade de engajar grupos diversos e comunicação estruturada. Competências assim são altamente demandadas em papéis de treinamento, RH, gestão de times e até marketing de conteúdo.
A transferibilidade existe porque certas habilidades dizem respeito, em essência, a como alguém pensa, se relaciona e age diante de desafios, e não ao ferramental técnico que utiliza em um cargo específico.
Leia também: Skill flux: o que é e como impacta a gestão de pessoas – Hubber
Por que elas estão ganhando espaço agora
A princípio, três forças convergentes explicam esse movimento:
1 – Velocidade das transformações tecnológicas
Em áreas de alta transformação digital, ferramentas que eram diferenciais há pouco tempo já se tornaram requisitos básicos. Portanto, o que permanece relevante não é o domínio de uma ferramenta específica, mas a capacidade de aprender, adaptar e aplicar conhecimentos em novos contextos.
2 – Escassez de talentos
Em diversas áreas, como tecnologia, análise de dados e gestão de projetos complexos, a demanda por profissionais qualificados supera a oferta disponível no mercado. As empresas que aprendem a identificar potencial em perfis não convencionais ampliam suas possibilidades.
3 – Mudança na natureza do trabalho
As funções tornaram-se mais fluidas, os times mais multidisciplinares e os projetos mais transversais. Profissionais que transitam bem entre contextos diferentes se destacam em estruturas assim. Isso, porém, não significa que a profundidade de especialização deixou de ser relevante, mas que a capacidade de adaptação passou a ser uma competência em si.
Como aplicar na gestão de pessoas
Antes de falar sobre processos seletivos, é importante destacar que a incorporação das habilidades transferíveis começa em uma etapa anterior: quando a empresa revisa o modo como descreve suas vagas.
Essa abordagem é conhecida como skills-based hiring e representa uma mudança na forma de atrair e desenvolver talentos. Descrições de cargo que listam exclusivamente requisitos técnicos tendem a excluir candidatos com alto potencial. Uma alternativa mais eficaz é estruturar o que se espera da pessoa em termos de resultados e comportamentos: o que ela precisará resolver, como precisará se relacionar e que tipo de raciocínio será exigido. Assim, esse modelo atrai perfis mais diversos e abre espaço para identificar competências que compensam uma eventual falta técnica.
No desenvolvimento interno, a lógica segue o mesmo caminho. Ao mapear as habilidades do time, a empresa consegue identificar profissionais com potencial para transições de carreira que talvez eles mesmos não enxerguem. Um analista financeiro com competência desenvolvida em comunicação pode se tornar um excelente business partner. Um especialista técnico com capacidade de síntese e influência pode assumir uma liderança sem nunca ter gerenciado pessoas formalmente, desde que conte com suporte estruturado de desenvolvimento nessa transição.
Leia também: Virei gestor, e agora? Conheça os desafios dos novos líderes – Hubber
Essa visão amplia o aproveitamento do capital humano interno e reduz a dependência de contratações externas para cada nova necessidade.
Como aplicar nos processos seletivos
Trabalhar com habilidades transferíveis no processo seletivo exige mudanças nos critérios de avaliação e nas ferramentas utilizadas.
Do lado dos critérios, o passo fundamental é separar o que é inegociável do que é aprendível. Há competências técnicas que precisam existir no momento da contratação, e há outras que podem ser desenvolvidas no contexto do próprio trabalho, dentro de um prazo razoável de adaptação. Quando essa distinção fica clara, o processo seletivo deixa de eliminar candidatos com base em requisitos que não são realmente determinantes para a função.
Do lado das ferramentas, entrevistas baseadas em competências e situações se mostram mais eficazes do que questionários técnicos para avaliar habilidades transferíveis. Perguntar como a pessoa lidou com uma situação de incerteza, como mediou um conflito ou como organizou um projeto sem recursos suficientes revela muito mais sobre a capacidade do profissional do que um teste de conhecimento específico.
As empresas que trabalham com terceirização de profissionais têm papel relevante nesse processo. Ao atuar como ponte entre o mercado de talentos e as necessidades das organizações contratantes, essas empresas precisam desenvolver uma capacidade refinada de leitura de perfil, identificando não apenas o que o profissional já fez, mas o que ele é capaz de fazer em um novo contexto.
Como identificar habilidades transferíveis
Reconhecer essas competências exige um olhar treinado. A seguir, confira algumas dicas rápidas para orientar essa leitura durante entrevistas e processos de avaliação interna.
- Pergunte sobre contextos, não sobre cargos
“Me conte sobre uma situação em que você precisou convencer alguém sem ter autoridade formal” revela muito mais do que “quais ferramentas você usou nessa função”.
- Observe como o candidato descreve seus aprendizados
Quem consegue abstrair o que aprendeu em uma experiência e explicar como aplicaria em outra demonstra, na própria resposta, a habilidade que se está buscando.
- Preste atenção em transições de carreira
Profissionais que já mudaram de área ou setor e obtiveram bons resultados têm histórico comprovado de adaptação, um dos indicadores mais confiáveis de transferibilidade.
- Mapeie o que ficou, não o que passou
Pergunte o que o profissional levaria de cada experiência anterior. A capacidade de identificar e nomear as próprias competências indica maturidade profissional e autoconhecimento.
- Use estudos de caso ou simulações
Apresentar um problema da função e pedir que o candidato raciocine em voz alta é uma das formas mais eficazes de observar como ele estrutura problemas, lida com incerteza e mobiliza o que sabe, independentemente do setor de origem.
- Considere o histórico de aprendizado formal e informal
Cursos, projetos paralelos, trabalho voluntário e mudanças de área por iniciativa própria são sinais de um profissional que não espera o ambiente mudar para se desenvolver.
O que muda para as empresas
Adotar as habilidades transferíveis é colocá-la como parte do conjunto de competências necessárias, e não como filtro único e absoluto. Desse modo, a empresa que aprende a enxergar e valorizar essas habilidades passa a ter acesso a um universo mais amplo de talentos, desenvolve melhor quem já faz parte do time e constrói equipes com maior capacidade de adaptação.
Saiba como a terceirização pode te ajudar a construir equipes com habilidades transferíveis!